25.2 - V - PB - ESCRAVO? ...NEM PENSAR!


Vivemos tempos em que muitas formas de escravidão não são vistas, mas sentidas. As correntes mudaram de forma, mas continuam apertando: são as pressões sociais, os padrões inalcançáveis, o racismo, o preconceito, o trabalho desvalorizado, a alienação do pensamento. Nesta eletiva, por meio de uma abordagem inter e transdisciplinar (Língua Portuguesa, História, Sociologia, Filosofia e Projeto de Vida), pretendeu-se analisar, debater, conhecer e romper essas correntes — uma a uma — a partir daquilo que verdadeiramente liberta: o conhecimento. “Escravo, Nem Pensar!” não constituiu um projeto apenas sobre o passado da escravidão no Brasil, mas sobre o presente de milhares de jovens que ainda vivem em prisões visíveis e invisíveis. Por conta disso, refletiu-se sobre o que nos prende e, principalmente, descobrir como a educação pode nos dar asas para voar.

Com efeito, a sociedade brasileira carrega marcas profundas de desigualdades históricas, das quais a escravidão é um dos pilares mais cruéis e estruturantes. Apesar da abolição formal em 1888, as suas heranças persistem em novas formas de aprisionamento: o trabalho análogo à escravidão, o racismo estrutural, a pobreza, a exclusão do acesso à educação de qualidade, além de diversas prisões simbólicas como os padrões impostos de beleza, consumo, sucesso e pensamento. A juventude, especialmente aquela das zonas rurais ou de contextos vulneráveis, segue sendo alvo (fácil!) das formas modernas de dominação.

Por conseguinte, a proposta desta eletiva dialogou com as diretrizes da Lei nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas. A eletiva 'Escravo, Nem Pensar!' articulou saberes das áreas de Linguagens, Ciências Humanas e Ciências da Natureza, possibilitando o desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e críticas por meio da análise de contextos históricos, sociais e simbólicos relacionados à ideia de escravidão contemporânea. Desta forma, constituiu objetivo central deste projeto eletivo promover a reflexão crítica dos estudantes sobre as múltiplas formas de escravidão contemporânea — simbólicas, sociais e estruturais — estimulando a construção da autonomia, da identidade e do protagonismo juvenil por meio da educação como ferramenta de libertação.

Inspirada no projeto 'Escravo, Nem Pensar!', esta eletiva propôs uma reflexão crítica sobre as formas de “escravidão” contemporânea — visíveis e invisíveis — e aposta na educação como um ato profundamente libertador, conforme nos ensina Paulo Freire. Para o Patrono da Educação Brasileira, “a educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo” (FREIRE, 1996). Ou seja, o processo educativo deve ser um exercício constante de leitura crítica da realidade e construção de autonomia, especialmente para os sujeitos historicamente silenciados.

Além da perspectiva freireana, é fundamental considerar o pensamento de Boaventura de Sousa Santos, que nos alerta para a necessidade de combater as “epistemologias do Norte”, que aprisionam o saber em moldes coloniais e eurocentrados. Ao abrir espaço para que os estudantes falem de suas realidades e se reconheçam como produtores de saber, a escola cumpre seu papel de ampliar horizontes e promover justiça cognitiva.

Outro pensamento essencial nesta abordagem foi o de Grada Kilomba, que chama a atenção para a colonialidade do ser e do saber, apontando como os corpos negros, periféricos e “fora do padrão” muitas vezes são ensinados a se calar, a se esconder, a se adaptar. Trabalhar essas questões com os jovens é permitir que eles rompam com essas amarras e construam suas próprias narrativas — conscientes, críticas e afirmativas.

Esta componente eletiva, portanto, nasceu como um convite à libertação — não apenas de grilhões físicos ou econômicos, mas das correntes simbólicas que muitas vezes os jovens sequer percebem que carregam. Afinal, como nos lembra Freire, “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”.


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