24.1 - N - TODO CAMBURÃO TEM UM POUCO DE NAVIO NEGREIRO!
A eletiva ‘Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro’ visa propiciar a compreensão da questão ‘O que é racismo estrutural?’, abrangendo todo o conceito que aborda o racismo e como este se estrutura na sociedade. A nossa estrutura é, essencialmente, racista.
Aqui no Brasil, o racismo é a regra e
não a exceção. O racismo está presente nas nossas relações políticas,
econômicas, jurídicas e até familiares. E, em todas elas, pessoas brancas
ocupam um espaço de poder, de tomada de decisão e de superioridade em relação
aos negros.
As causas do racismo estrutural no
Brasil vêm de um processo histórico, remontando ao colonialismo e à dominação
iniciadas no século XVI. Com efeito, desde a chegada dos
portugueses ao continente americano, índios e negros, por serem
considerados inferiores pelos brancos, foram escravizados e impostos à cultura
europeia. Por mais de 300 anos, o trabalho escravo se manteve como um dos
pilares econômicos do Brasil.
Desde então, pessoas não brancas e sua cultura, hábitos e rituais foram
tidas – e persistem, quase 150 anos após a abolição da escravidão – como “não
civilizadas”, conceito que se enraizou na base da sociedade e foi replicado de
geração para geração.
Como afirmou a filósofa e escritora Djamila Ribeiro,
a gente já nasce numa
sociedade que tem uma hierarquia de humanidade em que, se você é negro, vai ser
tratado de um jeito, se é branco, vai ser tratado de outro. A sociedade já
estabelece essas construções para nós e vamos assimilando isso, internalizando
e aceitando como verdade. Ninguém nasce odiando ninguém, a gente aprende a
odiar.
O racismo estrutural
acontece nos diversos âmbitos sociais e,
na prática, significa que está presente no nosso cotidiano e muitas vezes de
maneiras quase imperceptíveis, como, por exemplo:
• quando não encontramos pessoas negras em cargos de
liderança;
• quando vemos que negros (mesmo quando ocupam os
mesmos cargos) ganham 30% a menos que os brancos ou;
• ao vermos uma mídia quase 100% branca em um país de
maioria negra, ou;
• no preconceito em relação às religiões de matriz
africana;
Então, podemos entender que o racismo se dá tanto por comportamentos
individuais racistas, quanto por processos institucionais (dentro
das nossas instituições) que não impedem que ele aconteça, retroalimentando
essa nossa estrutura social desigual e discriminatória.
No âmbito escolar, por
exemplo, os indicadores de
escolaridade da população com recorte de raça, apontam uma evidente desvantagem
da população negra ou parda.
Já na Educação Infantil, o acesso a esse direito apresenta índices
diferentes, conforme o grupo racial: 53% das crianças pretas ou pardas de 0 a 5
anos de idade frequentavam a creche ou escola em 2018, contra 55,8% das
crianças brancas.
Entre a população preta ou parda, a taxa de analfabetismo das pessoas de
15 anos ou mais é de 9,1%, enquanto o mesmo indicador é de 3,9% na população
branca. Entre a população negra ou parda, a proporção de pessoas de 25 anos ou
mais com pelo menos o Ensino Médio completo é de 40,3%. Já entre os brancos, o
índice é de 55,8%.
A proporção da população preta ou parda entre 18 e 24 anos com menos de
11 anos de estudo e que não frequentavam a escola em 2018 era de 28,8%, frente
17,4% de brancos na mesma situação. Essa profunda desigualdade escolar tem
reflexos graves, como na renda e na expectativa de vida dessas populações.
Em relação à renda domiciliar, dados do IBGE demonstram que a renda para
contemplar todas as necessidades básicas não afeta a população de maneira
uniforme. Alguns contingentes populacionais são mais vulneráveis a essa
realidade. Em 2018, 32,9% das pessoas pardas ou pretas estavam abaixo da linha
considerada, enquanto as pessoas brancas correspondiam a 15,4%.
Esses dados mostram que a inserção no mercado de trabalho não se
verifica como parâmetro para superação da pobreza, pois mesmo ocupando algum
cargo de trabalho, o rendimento domiciliar pode ser insuficiente. Além disso,
segundo o IBGE (2017) o total de pessoas desempregadas no Brasil chegou a 13
(treze) milhões, dentre estas 8,3 eram negras, o que correspondia a
aproximadamente 64%. Também foi verificado que o mercado de trabalho formal era
ocupado em sua maioria por pessoas brancas com 68,8% desse grupo ao passo que a
população negra correspondia a 54,6%, cuja está mais vulnerável a salários mais
baixos.
O racismo estrutural também desemboca na desigualdade social e também se
manifesta no mercado de trabalho expressando maior incidência nos/as negros/as
do país. De acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais (IBGE, 2019b), dentre
as pessoas ocupadas, o número de pretos e pardos equivalia a 53,7%, ao passo
que pessoas brancas correspondiam a 45,2%.
Embora se verifique uma diferença de 8,5% entre estes grupos
populacionais, foi constatado que a presença de pretos e pardos era maior em
atividades no setor agropecuário, construção e serviços domésticos com 60,8%,
62,6% e 65,1%, respectivamente, cujas atividades conferem baixas remunerações.
E ainda, cargos gerenciais são ocupados por 68,6% de pessoas brancas, enquanto
apenas 29,9% são ocupados por negros/as. Isto sinaliza o fato de que a
população negra ainda é maior número em cargos subalternizados e consequentemente
recebem menos que brancos/as.
Em relação a homicídios, pessoas pretas e
pardas no Brasil lideram o ranking de mortes violentas em 2021, segundo dados
do relatório Atlas da Violência, divulgado nesta 3ª feira (5.dez.2023). O grupo
que compõe a população negra, de acordo com a classificação do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), corresponde a 8 de cada 10 pessoas
assassinadas no país. Das 77.847 vítimas no Brasil, em todo ano de 2021, 36.922
eram negras. O número equivale a 77,1% dos mortos. A taxa de homicídios entre o
grupo foi 3 vezes maior que a de pessoas não negras (soma de amarelos, brancos
e indígenas).
Por mais que as leis
garantam a igualdade entre os povos, o racismo é um processo histórico que
modela a sociedade até hoje. Uma prova disso é o contraste explícito entre o
perfil da população brasileira e sua representatividade no Congresso. Enquanto
a maior parte dos habitantes é negra (54%), quase todos (96%) os parlamentares
são brancos. Outro dado relevante da violência contra a população negra é que a
cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.
Frente a esta realidade
também vivenciada pelos alunos e pelas alunas do Centro de Ensino Teresinha
Alves Rocha - CETAR, a presente Eletiva, será desenvolvida com os estudantes da
1ª Etapa da Educação de Jovens e Adultos – EJA, e almeja propiciar diversos
encontros de discussão e reflexão acerca do racismo estrutural pautados em
dados oficiais e também na experiencia pessoal de cada estudante deste Centro.
Com isso, pretende-se
possibilitar a ampliação e aprofundamento da consciência crítica do alunado
acerca de uma realidade latente às relações sociais e institucionais do
brasileiro, especialmente dos jovens e das jovens estudantes novaolindenses. E,
por corolário, do desenvolvimento dessa consciência crítica, a idealização da
eletiva ambiciona chegar à mudanças de hábitos e de atitudes na amalgamada teia
das múltiplas e multifacetadas relações sociais em que estão inseridos e das
quais são artífices e produtos.
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