23.1 V - O MUNDO É UM PALCO: VIVA O TEATRO!

A Eletiva de Base ‘A Vida é um Palco: Viva o Teatro!’ foi idealizada e elaborada pela Professora Célia Maria Sousa Ribeiro, e desenvolvida com os estudantes das turmas 100 e 101, da 1ª série do Ensino Médio, do turno vespertino, deste centro de Ensino.

A componente curricular Eletiva de Base constitui uma forma de ampliar, aprofundar e enriquecer os conteúdos da base curricular comum, a partir da interdisciplinaridade pedagógica. E é nesta perspectiva interdisciplinar que o presente projeto eletivo se apresentou em um trabalho conjunto, com enfoque no Teatro enquanto ferramenta comunicativo-expressiva, abarcando as componentes curriculares Língua Portuguesa, Arte e História, de modo que aspectos do teatro foram abordados para o desenvolvimento da consciência corporal, da interpretação e da reflexão crítica-sensível.

Para isso, foram introduzidos conteúdos referentes às práticas cênicas para aquecimento, exploração de elementos do teatro, expressão corporal, gestual e vocal, construção de personagens e cenas, bem como a elaboração/produção de obra teatral. Toda essa abordagem foi executada por meio de aulas expositivas e dialógicas, exercícios orientados, experimentação de práticas artísticas, além da discussão sobre as dinâmicas, leituras e interpretações textuais. Desta forma, buscar-se-á a aquisição da compreensão dos princípios básicos da comunicação e expressão, abrangendo momentos de pesquisa e criação, nos quais os estudantes sejam cocriadores dos processos de ensino aprendizagem.

Com efeito, o teatro é uma poderosa ferramenta educativa, em especial porque possibilita que o indivíduo se coloque no lugar do outro (empatia) e compreenda suas dores e motivações. Assim, o teatro - ou melhor, os jogos teatrais (forma didática em que o teatro será trabalhado em sala de aula) se consubstancia como uma aparato didático-pedagógico de interação grupal, que permite o acelerar do desenvolvimento cognitivo, através de aprendizagens significativas.

Neste caso, em específico, por jogo entende-se “uma atividade aceita pelo grupo, limitada por regras e acordo grupal; divertimento; espontaneidade, entusiasmo e alegria acompanham os jogos; seguem par e passo com a experiência teatral” (SPOLIN, 2010a, p. 342).

O escopo de tal proposta foi construir e/ou ampliar as habilidades comunicativas e expressivas dos alunos, estimulando a espontaneidade, o espírito de liderança, a criatividade, o trabalho em equipe e a desinibição estudantil, por meio de aulas teóricas e oficinas práticas.

Convém ressaltar que mais de 90% do alunado de 1ª série, do turno Vespeertino, a quem se destina a presente eletiva, são oriundos da zona rural do município de Nova Olinda do Maranhão e cidades vizinhas. E o histórico escolar desses estudantes, até chegarem ao ensino médio, foi marcado por experiências díspares de ensino aprendizagem (ensino multisseriado, disciplinas ausentes em alguns anos escolares, aprovação automática que não reflete as devidas aprendizagens esperadas para as séries escolares, etc.).

Neste sentido, ainda é possível constatar que o acesso dos alunos à produção artística é restrito ou insuficiente. O que dificulta e, por vezes, até inviabiliza a formação do senso crítico, a noção da estética e da linguagem multissensorial que é inerente às quatro áreas da componente curricular Arte: artes visuais, música, dança e teatro (HILMANN e ROSSETO, 2013, p.2).

Por conseguinte, a utilização das técnicas e/ou jogos teatrais tem plenas condições de ofertar aprendizagens específicas dos objetos de conhecimento da área de artes, bem como objetos de conhecimento das áreas de Língua Portuguesa e de História. Com efeito, de acordo Japiassu:

A finalidade do jogo teatral na educação escolar é o crescimento pessoal e o desenvolvimento cultural dos jogadores por meio do domínio, da comunicação e do uso interativo da linguagem teatral, numa perspectiva improvisacional ou lúdica. O princípio do jogo teatral é o mesmo da improvisação teatral, ou seja, a comunicação que emerge da espontaneidade das interações entre sujeitos engajados na solução cênica de um problema de atuação. (JAPIASSU, 2008. p.26).

Historicamente, conforme Juan Antonio Moreno Murcia (2005, p. 9) o jogo é um fenômeno antropológico que se deve considerar no estudo do ser humano, “é uma constante em todas as civilizações, esteve sempre unido à cultura dos povos, à sua história, ao mágico, ao sagrado, ao amor, à arte, à língua, à literatura, aos costumes, à guerra”.

Nesse mesmo sentido, Tizuko Morchida Kishimoto (2008, p. 28) afirma que o jogo é visto como recreação desde a antiguidade, aparecendo como “relaxamento necessário a atividades que exigem esforço físico, intelectual e escolar”, sendo até mesmo considerado como algo “não sério”. No entanto, ele aduz ainda que a partir do Renascimento o jogo também passa a divulgar princípios de moral, ética e conteúdo de história, geografia, dentre outras, por entender a brincadeira como “conduta livre que favorece o desenvolvimento da inteligência e facilita o estudo”.

Como se vê, os jogos que inicialmente foram criados para o lazer, como algo até mesmo fútil, ou mero relaxamento para outras atividades, inclusive intelectual, contudo, se percebeu que os jogos podem ser utilizados com finalidade educacional, facilitando e tornando a aprendizagem prazerosa, bastando que o indivíduo permita que o ambiente lhe ensine tudo que tem para ensinar, inclusive a relacionar-se com os seus colegas de classe e professores.

Também Juscelino Batista Ribeiro ressalta a importância dos jogos teatrais na promoção do trabalho em equipe e no relacionamento entre os alunos:

A contribuição mais expressiva do teatro reside na utilização de jogos teatrais que liberam a criatividade, promovem o trabalho em equipe, melhorando, assim, o relacionamento entre os alunos, despertam os sentidos, estimulam o raciocínio rápido, enfim libertam o aluno preparando o caminho para que o mesmo possa fazer um trabalho de descobertas, de experimentação e criação, que pode melhorar, em muito o rendimento dos alunos e das aulas, independente da disciplina (RIBEIRO, 2004, p. 68).

É natural que o início de um novo ano letivo, a mudança de escola e de ambiente rural para um ambiente urbano traga consigo a apreensão que o novo carrega e a inibição própria da personalidade de cada estudante. Superar esses obstáculos primeiros dentro da rotina e da dinâmica escolar constitui um desafio ao qual a temática desta eletiva se lança.

Para isso, sendo os jogos teatrais um sistema de regras lúdicas usadas também no contexto educacional, com importante influência no desenvolvimento das competências pessoais e sociais, apresentam-se também como instrumento de caráter didático-pedagógico que, de forma divertida e sinérgica, é capaz de superar a inibição e os bloqueios comunicativos e/ou criativos.

Isso porque as atividades desenvolvidas durante a presente Eletiva, seja em seus momentos teóricos, seja nas oficinas de prática com jogos teatrais, o estudante foi instigado e mobilizado como um todo, corpo e mente, pensamento e expressão, cognitivo e emocional. Com efeito, de acordo com Spolin, todos as partes do corpo, desde a cabeça até os dedos dos pés, funcionam como uma coisa só “para uma resposta de vida. O corpo deve ser um veículo de expressão e precisa ser desenvolvido para tornar-se um instrumento sensível, capaz de perceber, estabelecer contato e comunicar” (SPOLIN, 2010a, p. 131).

A presença do teatro na escola, por meio de seus jogos e técnicas, é de grande valia para preparar adolescentes e jovens a caminho do futuro. Um futuro que exigirá flexibilidade, dinamismo e agilidade no pensar, no agir e na arte de refletir e conviver. Para isso, foram empregadas algumas técnicas de dicção, respiração, vocalização, articulação e aquecimento, bem como exercícios de criação, improvisação, leitura,  interpretação, colaboração e capacidade de liderança, através de oficinas que serão focadas no desenvolvimento da expressão e da comunicação dos alunos.

Por corolário, percebeu-se, portanto, que essa sequência pedagógica com os jogos teatrais é de grande utilidade como forma de promoção do relacionamento interpessoal entre os alunos, prevenindo ainda a evasão escolar, a prática de bullying, de discriminação e de todo tipo de atos antissociais.

Segundo Spolin (2008a, p. 30), “a oficina de jogos teatrais oferece aos alunos a oportunidade de exercer sua liberdade, respeito pelo outro e responsabilidade dentro da comunidade da sala de aula”. A Autora afirma ainda que, “o jogo estimula vitalidade, despertando a pessoa como um todo - mente e corpo, inteligência e criatividade, espontaneidade e intuição - quando todos, professor e alunos estão atentos para o momento presente” (ibidem).

De acordo com Spolin (ibidem, p. 30), “a maioria dos jogos é altamente social e propõe um problema que deve ser solucionado – um ponto objetivo com o qual cada indivíduo se envolve e interage na busca de atingi-lo. Muitas habilidades aprendidas por meio do jogo são sociais”.

Nas oficinas, através do envolvimento do grupo, os estudantes puderam desenvolver a “liberdade pessoal dentro das regras estabelecidas, habilidades pessoais necessárias para jogar o jogo e irão internalizar essas habilidades e esta liberdade ou espontaneidade” (SPOLIN, 2010b, p.11-12).

Diante do exposto, percebeu-se, portanto, que o propósito do emprego dos jogos teatrais é estimular o corpo e a mente dos estudantes/jogadores/atores, superando desafios, libertando dos medos e inibições peculiares a cada um(a), questionando algumas regras impostas pela sociedade, rompendo limites, despertando a imaginação e a criatividade, possibilitando autonomia social, emocional e cognitiva e a entrega ao novo como possibilidade de construção e de mudança pessoal, acadêmica e profissional.












 





 















 









































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